segunda-feira, 14 de julho de 2008

Férias de mim

Publico um texto na íntegra, perfeito, que traduz exatamente o que ando sentindo: a vontade da minha ausência, de tirar férias de mim.
Quero poder sair e voltar quando a tristeza tiver ido embora, quando sentir vontade da vida de novo, quando puder olhar para todos sem culpa, quando meu olhar e meu sorriso forem novamente cheios de brilho e felicidade.
Enquanto não posso fazer isso, vou tentar levar essa vida anestesiada que ela diz. Acordar e ligar o botão da vida comum, sem paixões dilaceradoras, sem o pulsar descompassado do coração imaturo, sem aquele respiro de satisfação de uma vida plenamente vivida, cheia de amores perfeitos e de relações profundas e verdadeiras.

Dias de alma nublada
Engraçado como a vida vai passando e se vai aprendendo que a gente também passa por ela. Longe de todos os apelos de ser atuante na própria história, se aprende que a vida acontece mesmo que você não queira que ela aconteça. Como eu queria poder tirar férias de mim. As vezes canso ser eu mesma. Tenho vontade, de vez em quando, de trocar com meus amigos ou até com desconhecidos. Viver outras angústias e alegrias, só pra variar, quebrar a rotina… Engraçado também é perceber que nunca estive tão sociável como agora e tão absurdamente só. Amar nos deixa solitários. Cansei de amar. Cansei das pessoas.
De repente você acorda um dia e percebe que seu mundo não é mais o mesmo, que seus amigos mentem pra você, seu peixe lhe é indiferente… Finalmente entende que tem mesmo gente torcendo pro seu fim dentro do seu próprio estádio. Aí no dia seguinte seu mundo desabou mesmo, os amigos se desculpam e até seu peixe, ressabiado, procura sua atenção…
Só que isso já não comove. A vida vai indo e nem sempre dá tempo de ir junto com ela. As rosas vão perdendo suas cores. Os amores já não fazem o corpo arrepiar. As paixões não aceleram os batimentos. E chega o tempo da total descrença nos relacionamentos.
Eu quero alguém pra amar, mas pode ser de outro planeta? Porque os amores humanos são brutos, nem sempre são possíveis… Súbito você olha no espelho e tanto faz. Tanto faz se hoje é um dia de sol, se você está mais ou menos bonita. Porque na semana que vem vai estar tudo igual, ou não! Você se revolta, toma decisões, berra aos quatro ventos que vai mudar de vida. E muda! Acorda diferente, come outras coisas, anda por outros lugares, seus assuntos são completamente outros e até as feições se alteram. As pessoas dizem que você anda mais serena, mais bonita… Mas não faz diferença. Se fosse do outro jeito, da maneira antiga, também haveriam outros amigos dizendo o quanto é bonita, o quanto é inteligente e invariavelmente dizendo que conversar contigo dá medo. Medo de quê?
Medo de mim. Isso eu tenho. Medo de mim! Medo de me odiar todas as manhãs e ainda assim sorrir pras pessoas, só pra elas não se atreverem a espicaçar minha intimidade. Medo de pensar que todo ser humano é intrinsecamente chato e entediante. Medo de ter certeza disso. Medo também da certeza de que tudo é sempre menos do se esperava. Aí não se ama mais com toda a alma (porque já se sabe que uma hora ou outra ele vai mesmo embora), já não se sofre com todas as angústias (mais cedo ou mais tarde as dores se curam) e nunca mais se choram todas as lágrimas (porque desperdiça-las com dores que vão mesmo passar?).
Me acostumei com a idéia de viver a vida anestesiada. Primeiro quando foi preciso, pra não enlouquecer com as dores, amores, horrores e em seguida por hábito. Só é difícil no início, mas depois é quase como brisa. Já não se perde mais tempo conhecendo alguém que está fadado a desaparecer da história da sua existência. Por mais que, ser quem se é, é produto de todas as pessoas com quais se convive, não se morre pela ausência deles. Muitas vezes eu morri pela presença deles!!! E quando isso ainda doía. Ainda machucava…
Dia desses, senti vontade de amar. Vontade doída, lá de dentro. Vontade de desperdiçar uma tarde inteira no parque, afagando os cabelos de um alguém… vontade de ligar no fim do dia, sorrindo… vontade de sentir saudade. Percebi que minha alma já esqueceu como é aquela sensação de entorpecimento da paixão. Mas a vontade ainda estava lá. E com a naturalidade de quem acaba tendo que fazer o que se é necessário que seja feito, matei-a. Afoguei-a em caminhadas solitárias por uma outra cidade, em uma exposição de arte, rodeada das mais lindas declarações de amor de todos os poetas, assinei sua sentença. Estrangulei com frieza minha frágil vontade de amar. Não dei a ela a mínima sobrevida. Nem sequer doei seu órgãos após sua morte. Deixei-a assim, numa cova rasa… indigente…
Fugi.
Da minha cidade, da minha vida…
Voltei mais calma.
Voltei menos eu…
Há muito desisti das pessoas…
Leva tempo pra desistir de mim?

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